15 de junho de 2026

Casaco de lã



Minha mãe me deu de presente um casaco de lã que ela comprou na primeira viagem que ela fez para a Europa na década de 1990. Um casaco de trinta anos que ela disse para usar em casa nessa época de frio, pois ele estava áspero e cheio de bolinhas, mas fiquei muito feliz com o presente e resolvi deixar esse casaco bem bonito. Li na etiqueta e vi que ele é feito com uma lã escocesa chamada "shetland" (que é mais áspera) e pesquisando na internet recomendaram deixar de molho em condicionador de cabelo com água morna, já que eu não tinha lanolina. Depois de secar, tirei as bolinhas com um aparelho de barbear e usei o vaporizador para tirar algumas deformações perto do ombro. O casaco ficou novo e virou meu novo casaco favorito.

Ela tinha quase a minha idade quando comprou esse casaco, que está aqui comigo agora. O mundo roda tão ligeiro. E o casaco continua aqui. Tantas coisas aconteceram nesse período.

Pensei na minha versão adolescente de quatorze anos, idade que eu tinha quando ela comprou o casaco. Estava na sétima série e gostava de jogar videogame (que ainda gosto de jogar). Na época, era o Playstation 1. E sempre que podia escolher o canal, gostava de assistir MTV. Não tinha muitos amigos. Meu melhor amigo nessa época era meu vizinho e a gente até hoje conversa por mensagens. A vida era simples. Não tinha grandes problemas no colégio e nem pensava em namorar. Já tentava me entender, mas não conversava com ninguém sobre minha sexualidade.

Eu acho que aquele adolescente iria gostar de saber do homem que me tornei. A vida é mais complicada hoje em dia, mas é boa também. Eu nunca imaginei que casaria e nem que teria dois cachorros e viveríamos em um apartamento pequeno, mas bonito. Continuo a gostar de livros, música, videogames e filmes.

A vida passa tão ligeira, bom que algumas coisas permanecem.

10 de junho de 2026

Café ruim



Ganhei dois pacotes de café sem marca, vindos de uma fazenda. O café moído bem fino e a cor bem preta. Não sou um chato do café e fico sempre muito feliz com qualquer presente. Tentei pela minha cafeteira italiana antiga, mas como a moagem era muito fina, ele passava quase todo pelo filtro. Comecei então a usar filtros de papel e funcionou. Testei algumas quantidades, mas mesmo assim o café continuava muito amargo. Não gosto de jogar comida fora, então usei no meu dia-a-dia. Finalmente acabou e abri um café normal desses de mercado. Que delícia! Parece agora o café mais gourmet da minha vida. De qualquer forma foi bom ter ficado com um café ruim. Continuo a usar filtro de papel com um porta-filtro bem bonito e agora os cafés normais estão deliciosos. Precisei de um café ruim para mudar meus hábitos de café.

9 de junho de 2026

Um pouco de choro e um pouco de alegria



Tinha muito tempo que eu não chorava, nem mesmo em filmes. As lágrimas se acumulam e em algum momento precisam transbordar, mesmo que em um momento inoportuno. E então chorei aquele choro feio, nada fotogênico. Choro real, do fundo da minha alma. Em pouco tempo me senti melhor, ao mesmo tempo que um cansaço antigo tomou conta de mim. Ao menos estava mais leve. É importante chorar de vez em quando. E tentei resolver minha aflição da forma que foi possível.

E então veio uma pequena alegria, nada relacionada ao choro de alguns dias atrás. A alegria de realizar algo concreto e importante. No frio dessa época quase sempre as resistências de chuveiros queimam, afinal precisam trabalhar mais. Mas mesmo no clichê dá uma preguiça agir. Desliguei todas as chaves de energia, removi a cabeça do chuveiro, achei a resistência, toda enferrujada, aproveitei para limpar e desentupir os pequenos buracos por onde passa a água. Peguei a resistência estropiada e fui nas lojas de material de construção aqui perto de casa. Claro que não seria fácil. Na loja mais perto não havia o modelo, tive que ir na mais longe. Voltei para casa, coloquei a nova peça, enchi de água para não queimar e fui com medo religar as chaves de energia. Não houve estalos ou fumaças, bom sinal. Mas não havia também aquele barulho forte da resistência na água, mas a água esquentou. A nova resistência é silenciosa e espero que dure alguns anos.

Um pouco de choro e um pouco de alegria fazem parte do cotidiano simples. E a vida continua.