11 de julho de 2026

Vida mais ou menos



Eu nunca pensei muito sobre o que eu gostaria de fazer profissionalmente. Nunca pensei qual cominho seguir ou o que realmente seria meu talento para o trabalho. Aliás, nem sei se tenho realmente algum talento. Eu apenas segui o fluxo. Tento pensar em alguma carreira que eu gostaria de aprender ou de me especializar- algum curso, livro ou algo assim, mas nada me ocorre. Eu não detesto o caminho que segui e acho que faço um bom trabalho, sou competente no que faço - já trabalho com isso há mais de quinze anos. Acho que não tenho ambição, não quero ser chefe ou ter mais responsabilidades do que já tenho. Ao mesmo tempo não estou feliz, mas também não estou infeliz. Estou acomodado, estou na minha zona de conforto, mas também não quero começar uma grade jornada sem saber qual direção quero ir. Tenho focado em minha vida particul ar, leio livros de ficção, jogo videogames, escuto músicas, vou a shows e peças de teatro, gosto de ver filmes e séries, brinco e cuido do meu cachorro (e vivencio o luto do meu outro cachorro), cuido da casa, curto a vida com meu marido. Talvez a minha realização não esteja no trabalho, mas sim na minha vida pessoal. Talvez o trabalho seja apenas uma. ferramenta para a minha vida pessoal. Não tenho o costume de falar sobre o meu trabalho e nem tenho grandes planos, não fiz grandes amizades em nenhum dos meus trabalhos. Em geral fico bem com minhas escolhas de uma vida pequena, uma vida mais simples, mas de vez em quando me questiono se deveria buscar mais, se deveria investir em um crescimento profissional. Realmente não sei. Tem um tempo que acho que minha vida está "mais ou menos". Preciso pensar mais.

9 de julho de 2026

Thominhas



Hoje acordei e nem imaginava o que se passaria. Ontem brinquei com o Thominhas, passeamos e no final da tarde ele começou a ter uma tosse que não passava. Hoje de manhã a tosse continuou e a respiração dele estava com um chiado. Levamos ao veterinário e era uma suspeita de edema pulmonar. Ele fez exames e raio-x e foi internado. Consegui tirar uma foto dele e me despedir, dizendo que logo voltaria para pegá-lo. Ele ainda balançou o rabinho, parecia que tudo ia ficar bem. Algumas horas depois ele piorou e foi entubado, faleceu em seguida, não conseguiram reanimar. O hospital preparou uma sala, colocou o corpinho dele de quatro quilos em cima de uma mantinha. Nós choramos tanto. Todos os dias eu tinha um ritual de colocar os cachorros para dormir. Todos os dias agradeci por eles viverem com a gente e digo o quanto eles são especiais e amados. Thominhas foi o primeiro cachorro que cuidei. Fiz passeios todos os dias, alimentei, brinquei. Criamos uma rotina boa. Ele me ensinou tanta coisa, todos os dias. E com os passeios conheci mais os vizinhos e o pessoal do prédio. Hoje me despedi do meu grande amigo, do meu filho, do meu bichinho tão especial. Vou sempre me lembrar dele. Aliás, sempre acho que ele está embaixo de alguma mesa ou dentro da toquinha. Não vou mais ouvir seu latido rouquinho, o plic-plic das patinhas no chão, as lambidas no meu pé quando ele queria dizer que estava com fome, o ronquinho, o sono com a barriga pra cima. Mas por mais que a dor seja grande, o amor é maior. Que bom que pude viver tantos aos com esse bichinho tão amado e que pude viver tanta coisa com ele. Agora ficam as memórias, as fotos, os bons momentos com ele. Fizemos tudo o que foi possível, ele teve uma vida boa. Um cachorrinho de menos de trinta centímetros, mas que se achava um grande lobo, sem medo de nada. Um cachorrinho gigante e que vai ficar pra sempre comigo na minha memória. E sempre feliz em ouvir um "quem quer comer?" ou um "vamos passear?". Muito obrigado, Thominhas. Por tudo! Para sempre vou lembrar do meu Tchons, Tchom-tchom le pompom, Mirubililinhas, Denguinho, Tchonx e todos os muitos apelidos. Já estamos com muitas saudades!

3 de julho de 2026

Doente



Tinha tempo que eu não ficava doente. Mas então comi algo que não me fez, misturado com o cansaço e várias outras coisas. Não pude ficar de cama, mas foi complicado. Trabalhei normalmente, o dia não passava. Demorei uns dois dias para me sentir melhor. Não precisa de muita coisa para adoecer, percebi isso. E agora tento me alimentar melhor, arrumar meu corpo e minha cabeça. Envelhecer não é mole.

Em geral sou uma pessoa tranquila. Faço minha meditação, gosto de ler para relaxar minha cabeça. Mas de vez em quando chegam as caraminholas. Uma a uma. Em geral coisas bestas e que sozinhas seriam apenas um pensamento passageiro. Uma comparação com alguém da época da faculdade, uma possível obrigação, um cenário imaginário, um futuro distópico, um capitalismo tardio, uma possibilidade remota. Quando fiquei mal todas as caraminholas viraram gigantescas. Não cheguei a sentir um ataque de pânico ou de ansiedade. Consegui achar minhas âncoras no mundo real e voltei aos poucos, como uma escalada em uma montanha íngreme. Um passo de cada vez. Uma respiração de cada vez. Aos poucos a mente voltou a ficar silenciosa, sem tantos barulhos. É muito fácil enlouquecer, perder o juízo. E talvez seja importante mesmo pirar de vez em quando. Mas é ótimo voltar, ter âncoras ou guias para retornar. Respirar.

15 de junho de 2026

Casaco de lã



Minha mãe me deu de presente um casaco de lã que ela comprou na primeira viagem que ela fez para a Europa na década de 1990. Um casaco de trinta anos que ela disse para usar em casa nessa época de frio, pois ele estava áspero e cheio de bolinhas, mas fiquei muito feliz com o presente e resolvi deixar esse casaco bem bonito. Li na etiqueta e vi que ele é feito com uma lã escocesa chamada "shetland" (que é mais áspera) e pesquisando na internet recomendaram deixar de molho em condicionador de cabelo com água morna, já que eu não tinha lanolina. Depois de secar, tirei as bolinhas com um aparelho de barbear e usei o vaporizador para tirar algumas deformações perto do ombro. O casaco ficou novo e virou meu novo casaco favorito.

Ela tinha quase a minha idade quando comprou esse casaco, que está aqui comigo agora. O mundo roda tão ligeiro. E o casaco continua aqui. Tantas coisas aconteceram nesse período.

Pensei na minha versão adolescente de quatorze anos, idade que eu tinha quando ela comprou o casaco. Estava na sétima série e gostava de jogar videogame (que ainda gosto de jogar). Na época, era o Playstation 1. E sempre que podia escolher o canal, gostava de assistir MTV. Não tinha muitos amigos. Meu melhor amigo nessa época era meu vizinho e a gente até hoje conversa por mensagens. A vida era simples. Não tinha grandes problemas no colégio e nem pensava em namorar. Já tentava me entender, mas não conversava com ninguém sobre minha sexualidade.

Eu acho que aquele adolescente iria gostar de saber do homem que me tornei. A vida é mais complicada hoje em dia, mas é boa também. Eu nunca imaginei que casaria e nem que teria dois cachorros e viveríamos em um apartamento pequeno, mas bonito. Continuo a gostar de livros, música, videogames e filmes.

A vida passa tão ligeira, bom que algumas coisas permanecem.

10 de junho de 2026

Café ruim



Ganhei dois pacotes de café sem marca, vindos de uma fazenda. O café moído bem fino e a cor bem preta. Não sou um chato do café e fico sempre muito feliz com qualquer presente. Tentei pela minha cafeteira italiana antiga, mas como a moagem era muito fina, ele passava quase todo pelo filtro. Comecei então a usar filtros de papel e funcionou. Testei algumas quantidades, mas mesmo assim o café continuava muito amargo. Não gosto de jogar comida fora, então usei no meu dia-a-dia. Finalmente acabou e abri um café normal desses de mercado. Que delícia! Parece agora o café mais gourmet da minha vida. De qualquer forma foi bom ter ficado com um café ruim. Continuo a usar filtro de papel com um porta-filtro bem bonito e agora os cafés normais estão deliciosos. Precisei de um café ruim para mudar meus hábitos de café.

9 de junho de 2026

Um pouco de choro e um pouco de alegria



Tinha muito tempo que eu não chorava, nem mesmo em filmes. As lágrimas se acumulam e em algum momento precisam transbordar, mesmo que em um momento inoportuno. E então chorei aquele choro feio, nada fotogênico. Choro real, do fundo da minha alma. Em pouco tempo me senti melhor, ao mesmo tempo que um cansaço antigo tomou conta de mim. Ao menos estava mais leve. É importante chorar de vez em quando. E tentei resolver minha aflição da forma que foi possível.

E então veio uma pequena alegria, nada relacionada ao choro de alguns dias atrás. A alegria de realizar algo concreto e importante. No frio dessa época quase sempre as resistências de chuveiros queimam, afinal precisam trabalhar mais. Mas mesmo no clichê dá uma preguiça agir. Desliguei todas as chaves de energia, removi a cabeça do chuveiro, achei a resistência, toda enferrujada, aproveitei para limpar e desentupir os pequenos buracos por onde passa a água. Peguei a resistência estropiada e fui nas lojas de material de construção aqui perto de casa. Claro que não seria fácil. Na loja mais perto não havia o modelo, tive que ir na mais longe. Voltei para casa, coloquei a nova peça, enchi de água para não queimar e fui com medo religar as chaves de energia. Não houve estalos ou fumaças, bom sinal. Mas não havia também aquele barulho forte da resistência na água, mas a água esquentou. A nova resistência é silenciosa e espero que dure alguns anos.

Um pouco de choro e um pouco de alegria fazem parte do cotidiano simples. E a vida continua.

27 de maio de 2026

Um pouco de mato




Enchemos o carro com algumas coisas (vinhos, cervejas, panelas, facas, frutas, pães e macarrões), pegamos os cachorros e fomos para o meio do mato. Mas é um mato perto de casa, coisa de menos de uma hora, aqui dentro do DF mesmo. Um chalé todo charmoso, desses com o teto bem inclinado, quase uma kitnet, mas com um segundo andar que só cabe uma cama e é preciso subir por uma escada que parece de navio. Um dos cachorros pirou e quis conhecer todos os matos ao redor, o outro não via a hora de voltar para casa e procurou pequenos esconderijos para se sentir protegido. Do lado de fora uma banheira, uma fogueira e uma churrasqueira. E, claro, uma vista maravilhosa para pequenos morros de cerrado. Foram dias de tomar vinho ao redor da fogueira, banhos de espuma na banheira e muita música, conversar sobre tudo e ler um pouco. Como pode um final de semana parecer tanto tempo? Voltei para casa renovado, feliz de ter ido para o mato com meu marido e os cachorros, nossa pequena aventura. Quem sabe fazemos outras aventuras, não é tão difícil.

11 de maio de 2026

Listas eternas



Há tantas coisas boas para fazer no mundo. Tantos livros bons para ler, filmes e séries bons para ver, jogos bons para jogar, músicas boas para escutar. Tenho feito listas para não me perder, mas ao invés de diminuir, as listas sempre aumentam. Talvez isso me faz não perder o interesse pela vida e sempre me deixam com aquela sensação de que sempre vão ter mais coisas boas espalhadas pelo mundo. Nunca sinto tédio, pois tenho livros, músicas, filmes, séries e jogos, muito mais do que poderei apreciar em uma só vida. Essa sensação de que o ser humano produz tanta arte e tantas coisas interessantes me motivam para continuar a viver por muitos e muitos anos.

24 de abril de 2026

Pequenas travessuras



Sempre tento fazer tudo direitinho, mas de vez em quando é tão bom fazer algo errado. Nada de crimes ou algo pesado, só uma besteira, uma leve derrapada que faz a gente se sentir de novo criança ou adolescente. Ser adulto o tempo todo é difícil demais. Então é importante fazer de vez em quando alguma estripulia, afinal de contas na maioria do tempo a gente precisa ser um adulto responsável, cumprir prazos, fazer tudo direitinho.

17 de abril de 2026

Feriado



Ufa, que alegria um feriadão. A vida ultimamente tem funcionado em ciclos de sete dias, então é ótimo saber que vou ter quatro dias de final de semana. Eu sei, é pouco pensar assim, mas tem me ajudado a pensar e viver uma semana de cada vez. E que seja um ótimo feriado!

2 de abril de 2026

Novo mês



Começa um novo mês e vem uma sensação de um novo começo. Melhor ainda quando o mês já chega com um feriado. Os dias têm sido corridos e março não foi nada fácil. Mas é isso, bola para frente. E nem de futebol eu gosto, mas a metáfora é boa. Então o melhor mesmo é seguir em frente. A vida não está ruim, acho que envelhecer tem sido também uma forma de aceitar as coisas e não se debater tanto. E tenho focado nas pequenas vitórias, que pensando bem não são assim tão pequenas. Tenho gostado da tranquilidade e esse é meu foco atual. Quero tranquilidade.

18 de março de 2026

Parece outra vida



Há mais ou menos seis anos começava a pandemia aqui no Brasil. De repente nos mandaram trabalhar de casa, sem nenhum preparo, sem programas e sem acessos. Em poucas semanas tudo mudou, passamos a trabalhar de casa com programas de vídeo chamadas, documentos salvos na nuvem e planilhas de atividades. Foi essencial poder trabalhar de casa e se adaptar. Mas o mundo do lado de fora parecia um filme apocalíptico. Máscaras, álcool em gel, entregas de produtos em casa. Parece uma época longínqua, há muitos anos. Uma outra vida. Desde então trabalho de casa no mesmo trabalho com praticamente as mesmas atividades. Amo trabalhar de casa e desde o começo me senti adaptado. E meus dois "estagiários" (os cachorros) sempre me ajudam muito. Uma pena que várias empresas resolveram acabar com o trabalho remoto ou instituíram o trabalho híbrido. Por aqui, ainda bem, continuo no remoto.

4 de março de 2026

Ciclos



Ultimamente tenho comprado umas cuecas baratas, dessas que vendem em pacote com cinco unidades. Pra mim o que é importante é que sejam 100% de algodão. Acho confortável, gosto do algodão. E não importa se são essas cuecas baratinhas ou então as caras de marca, elas sempre vão rasgar ou o elástico vai ficar relaxado. Eu tava com algumas nessa situação e foi como um bálsamo jogar as antigas fora e abrir um pacote novo de cuecas. Parece que foi um autocuidado e pensei no porquê eu preciso usar as minhas cuecas e roupas até praticamente ficarem imprestáveis. E então me veio a resposta: porque o contraste com as peças novas é maravilhoso. E vi que uso essa mesma ideia em praticamente tudo na minha vida. Só consigo trocar quando está completamente usado. É assim com café, chá, xícaras, panelas, tudo. Detesto estragar coisas. Penso na cadeia de produção e como tudo de certa forma vai parar nos aterros sanitários. Então tento usar tudo ao máximo. Não tem jeito, não tem compensação, não tem lixo zero, mas ao menos fico com a consciência um pouco mais tranquila. Só um pouco.

28 de fevereiro de 2026

Carnaval



O carnaval foi ótimo, só queria mesmo ter caprichado mais. Com tudo o que rolou em dezembro e janeiro só pensava em saúde e cuidado, não consegui me concentrar em pensar em fantasias. Reciclei o que pude e nitidamente dava pra ver que não tinha nenhum esforço ali. Um chapéu divertido, roupas confortáveis, tênis e um pouco de purpurina. Mas mesmo assim foi divertido. Carnaval de rua é o meu favorito. Carnaval de rua com fanfarra então. Teve blocos no centro da cidade, em bairro que parece cidade do interior, teve bloco que passeou pelos jardins da cidade. E nenhum dia choveu! Ano que vem vou tentar caprichar um pouco mais. Carnaval é tão importante. Como é bom morar em um país que leva carnaval a sério! Como é bom poder dançar na rua com os amigos, tomar cerveja logo cedo, ficar com os pés doloridos, rir.

12 de fevereiro de 2026

Quase carnaval



O carnaval já está bem ali, mas ainda não chegou a animação. Janeiro não foi um mês fácil e tenho tentado não colocar a expectativa no carnaval lá em cima. Quero me divertir, encontrar minhas amigas, dançar. Tem tanto tempo que não danço. Espero que seja um carnaval divertido. Não investi muito em fantasias, vou tentar reciclar alguma coisa do acervo que já temos em casa. Já sei que vai chover, pois nessa época sempre chove, então vou preparar a capa de chuva. E no mais, que o carnaval seja bom.

3 de fevereiro de 2026

Bora em frente



Fevereiro começou e estou muito cansado. Não houve nada de diferente, mas sinto um esgotamento físico e mental. Mas o jeito é seguir em frente. Respirar fundo e seguir. Tem dias que são mais complicados e chatos. Coisas boas vão vir ainda.

22 de janeiro de 2026

Acompanhar



Está tudo mais ou menos tranquilo, a rotina mais ou menos igual em todas as semanas. Um tijolinho depois do outro, mas estão vem uma bomba e desequilibra tudo. Na verdade tudo parecia tão equilibrado, tão estável, mas então tudo se reorganiza de outra forma. Mas é bom receber esse sacode. Quer dizer, bom não é, mas vai acontecer um sacode de qualquer jeito. E tudo vira experiência. Eu, por exemplo, já estou expert em internações. Já estou preparando minha mochila com algumas coisas importantes. Vai ser só um pernoite, mas a mochila está quase pronta com meu leitor digital, videogame portátil, alguns lanches, um paninho para caso faça frio, fone de ouvido, copo e garrafa térmicos, carregadores. Deixo uma lista pronta no meu aplicativo de notas. Sei que a noite vai ser difícil, o sofá-cama desconfortável, os barulhos dos monitores de saúde, o entra-e-sai de pessoas o tempo todo. Para mim sempre ajuda focar na saúde e alta da pessoa, sempre muito amada, que estou de acompanhante. Espero que corra tudo bem!

14 de janeiro de 2026

Vida e morte



A vida virou um pouco de cabeça pra baixo com as notícias de saúde do meu marido. Pode ser algo simples, mas pode ser algo bem complicado, ainda não dá para saber. Tenho então tentado focar em etapas. A primeira agora é a cirurgia, minhas energias estão todas agora nessa. Depois a gente pensa nos próximos passos. Tenho buscado ser forte, ouvir, falar coisas boas, mas no fundo estou com muito medo. Envelhecer é entender mais de perto a possibilidade de morte, tanto a nossa própria quanto a morte de pessoas próximas. E isso me dá medo, pois não somos mais imortais, como acreditamos na juventude. Eu sei racionalmente que todos vamos morrer, mas é bem mais fácil quando a morte é apenas uma questão longe para lidarmos mais pra frente, quando ela não dói e está apenas ali no canto, embaixo do tapete. Mas ela está sempre ali. Ela é real, ela precisa doer. Ela é parte da vida. Não dá para ser aquela pessoa que emana positividade tóxica. É preciso pensar na morte, ela está no ciclo da vida.

9 de janeiro de 2026

Uma vida bem ordinária



Eu vivo no Brasil em 2026, uma sociedade desigual e capitalista. Eu preciso vender minha força de trabalho em troca de um salário. Tentei me imaginar em uma outra sociedade em que eu não precisaria receber um salário ou então tentei me imaginar como um herdeiro de uma grande fortuna e que eu nunca mais precisaria trabalhar o que eu faria? Eu gostaria de ler, de pesquisar, de estudar, gostaria de viajar pelo mundo, gostaria de ajudar as pessoas de alguma forma e, claro, precisaria também de um tempo para não fazer absolutamente nada. Mas esse mundo não existe e eu preciso sim trabalhar. Nunca pensei muito em se gosto ou não do meu trabalho. Eu na verdade nunca gostei especialmente de um trabalho, estágio ou trabalho voluntário que fiz, claro, também não detestei nenhum. Não sei também o que eu gostaria de fazer, qual trabalho seria o ideal para mim, afinal de contas não existe trabalho ideal. Existe trabalho. Eu gosto de ter um trabalho relativamente tranquilo e previsível, um trabalho que me pague certinho todos os meses e que eu posso tirar férias ao menos uma vez por ano. Esse já é o trabalho que eu tenho atualmente. Não é nada que eu me orgulhe, mas será que é preciso mesmo se orgulhar do trabalho? Eu me orgulho de quem eu sou, das decisões que eu tomei. Eu tenho orgulho de ser uma pessoa boa, de não fazer mal a ninguém e de poder dormir tranquilamente todas as noites sem grandes preocupações. Tenho orgulho da família que montei e os laços que mantenho. Gosto de pensar que o Vinicius hoje de 42 anos se daria bem com o Vinicius criança. E olha, mesmo esse Vinicius criança não tinha grandes ambições sobre o trabalho. Eu nunca soube exatamente o que eu queria ser quando crescesse e ainda não sei bem agora que sou adulto há muitos anos. Mas por enquanto não é uma grande crise, apesar das pressões da família e amigos. Eu faço bem meu trabalho e acho que mais pra frente vou saber os próximos passos. Por enquanto estou bem por aqui. Não tenho grandes ambições até hoje. Minha vida não é meu trabalho e, pensando bem, nem gosto de falar do meu trabalho fora do meu expediente. Não pretendo fazer grandes feitos e nem deixar uma marca na humanidade. Nem todo mundo precisa ser um verbete em alguma enciclopédia eletrônica. É libertador saber que pouco depois da minha morte quase ninguém vai se lembrar de mim ou dos meus feitos, como quase ninguém lembra da vida dos meus avós, que também não tiveram uma vida extraordinária. Eu gosto dessa vida ordinária (mesmo que essa palavra ainda me lembre dos pagodes dos anos 90 até hoje!). Gosto dessa vida simples, tranquila. Não preciso de muito e sei que não vou deixar uma grande marca. E está ótimo!

8 de janeiro de 2026

Chá de cidreira



Na casa dos meus pais até hoje tem um pé de cidreira. Lembro de tomar quase sempre chá de cidreira com muito açúcar. Acho que era o único chá que a gente tomava no dia-a-dia, sem estar doente. Há alguns dias minha cunhada nos deu alguns ramos de cidreira, afinal de contas esses últimos dias estamos com muitas preocupações de saúde. Fervi a água só até leves bolhas aparecerem, desliguei, coloquei os ramos e abafei por uns dez minutos. Tomei uma xícara e deixei o restante na garrafa térmica. Na hora me lembrei da infância, mesmo que agora não tenha mais açúcar no chá. Aquela xícara me acalmou e tomei o restante antes de dormir, pois no dia seguinte o rotina de trabalho voltaria. Um sono gostoso me dominou, minha cabeça estava mais tranquila. Não sei se foi a cidreira em si, mas fiquei mais calmo. E os dias seguintes também foram mais tranquilo, aquele furacão todo de preocupação com a saúde também parece que se dissipou um pouco. Agora é esperar a burocracia do plano de saúde. Mas com a cabeça mais tranquila.