22 de janeiro de 2026

Acompanhar



Está tudo mais ou menos tranquilo, a rotina mais ou menos igual em todas as semanas. Um tijolinho depois do outro, mas estão vem uma bomba e desequilibra tudo. Na verdade tudo parecia tão equilibrado, tão estável, mas então tudo se reorganiza de outra forma. Mas é bom receber esse sacode. Quer dizer, bom não é, mas vai acontecer um sacode de qualquer jeito. E tudo vira experiência. Eu, por exemplo, já estou expert em internações. Já estou preparando minha mochila com algumas coisas importantes. Vai ser só um pernoite, mas a mochila está quase pronta com meu leitor digital, videogame portátil, alguns lanches, um paninho para caso faça frio, fone de ouvido, copo e garrafa térmicos, carregadores. Deixo uma lista pronta no meu aplicativo de notas. Sei que a noite vai ser difícil, o sofá-cama desconfortável, os barulhos dos monitores de saúde, o entra-e-sai de pessoas o tempo todo. Para mim sempre ajuda focar na saúde e alta da pessoa, sempre muito amada, que estou de acompanhante. Espero que corra tudo bem!

14 de janeiro de 2026

Vida e morte



A vida virou um pouco de cabeça pra baixo com as notícias de saúde do meu marido. Pode ser algo simples, mas pode ser algo bem complicado, ainda não dá para saber. Tenho então tentado focar em etapas. A primeira agora é a cirurgia, minhas energias estão todas agora nessa. Depois a gente pensa nos próximos passos. Tenho buscado ser forte, ouvir, falar coisas boas, mas no fundo estou com muito medo. Envelhecer é entender mais de perto a possibilidade de morte, tanto a nossa própria quanto a morte de pessoas próximas. E isso me dá medo, pois não somos mais imortais, como acreditamos na juventude. Eu sei racionalmente que todos vamos morrer, mas é bem mais fácil quando a morte é apenas uma questão longe para lidarmos mais pra frente, quando ela não dói e está apenas ali no canto, embaixo do tapete. Mas ela está sempre ali. Ela é real, ela precisa doer. Ela é parte da vida. Não dá para ser aquela pessoa que emana positividade tóxica. É preciso pensar na morte, ela está no ciclo da vida.

9 de janeiro de 2026

Uma vida bem ordinária



Eu vivo no Brasil em 2026, uma sociedade desigual e capitalista. Eu preciso vender minha força de trabalho em troca de um salário. Tentei me imaginar em uma outra sociedade em que eu não precisaria receber um salário ou então tentei me imaginar como um herdeiro de uma grande fortuna e que eu nunca mais precisaria trabalhar o que eu faria? Eu gostaria de ler, de pesquisar, de estudar, gostaria de viajar pelo mundo, gostaria de ajudar as pessoas de alguma forma e, claro, precisaria também de um tempo para não fazer absolutamente nada. Mas esse mundo não existe e eu preciso sim trabalhar. Nunca pensei muito em se gosto ou não do meu trabalho. Eu na verdade nunca gostei especialmente de um trabalho, estágio ou trabalho voluntário que fiz, claro, também não detestei nenhum. Não sei também o que eu gostaria de fazer, qual trabalho seria o ideal para mim, afinal de contas não existe trabalho ideal. Existe trabalho. Eu gosto de ter um trabalho relativamente tranquilo e previsível, um trabalho que me pague certinho todos os meses e que eu posso tirar férias ao menos uma vez por ano. Esse já é o trabalho que eu tenho atualmente. Não é nada que eu me orgulhe, mas será que é preciso mesmo se orgulhar do trabalho? Eu me orgulho de quem eu sou, das decisões que eu tomei. Eu tenho orgulho de ser uma pessoa boa, de não fazer mal a ninguém e de poder dormir tranquilamente todas as noites sem grandes preocupações. Tenho orgulho da família que montei e os laços que mantenho. Gosto de pensar que o Vinicius hoje de 42 anos se daria bem com o Vinicius criança. E olha, mesmo esse Vinicius criança não tinha grandes ambições sobre o trabalho. Eu nunca soube exatamente o que eu queria ser quando crescesse e ainda não sei bem agora que sou adulto há muitos anos. Mas por enquanto não é uma grande crise, apesar das pressões da família e amigos. Eu faço bem meu trabalho e acho que mais pra frente vou saber os próximos passos. Por enquanto estou bem por aqui. Não tenho grandes ambições até hoje. Minha vida não é meu trabalho e, pensando bem, nem gosto de falar do meu trabalho fora do meu expediente. Não pretendo fazer grandes feitos e nem deixar uma marca na humanidade. Nem todo mundo precisa ser um verbete em alguma enciclopédia eletrônica. É libertador saber que pouco depois da minha morte quase ninguém vai se lembrar de mim ou dos meus feitos, como quase ninguém lembra da vida dos meus avós, que também não tiveram uma vida extraordinária. Eu gosto dessa vida ordinária (mesmo que essa palavra ainda me lembre dos pagodes dos anos 90 até hoje!). Gosto dessa vida simples, tranquila. Não preciso de muito e sei que não vou deixar uma grande marca. E está ótimo!

8 de janeiro de 2026

Chá de cidreira



Na casa dos meus pais até hoje tem um pé de cidreira. Lembro de tomar quase sempre chá de cidreira com muito açúcar. Acho que era o único chá que a gente tomava no dia-a-dia, sem estar doente. Há alguns dias minha cunhada nos deu alguns ramos de cidreira, afinal de contas esses últimos dias estamos com muitas preocupações de saúde. Fervi a água só até leves bolhas aparecerem, desliguei, coloquei os ramos e abafei por uns dez minutos. Tomei uma xícara e deixei o restante na garrafa térmica. Na hora me lembrei da infância, mesmo que agora não tenha mais açúcar no chá. Aquela xícara me acalmou e tomei o restante antes de dormir, pois no dia seguinte o rotina de trabalho voltaria. Um sono gostoso me dominou, minha cabeça estava mais tranquila. Não sei se foi a cidreira em si, mas fiquei mais calmo. E os dias seguintes também foram mais tranquilo, aquele furacão todo de preocupação com a saúde também parece que se dissipou um pouco. Agora é esperar a burocracia do plano de saúde. Mas com a cabeça mais tranquila. 

5 de janeiro de 2026

Livros 2025


(as madeleines que comi no dia que terminei de ler o último livro da saga Em Busca do Tempo Perdido)

Mesmo com muita coisa na cabeça consegui ler quase todos os dias, nem que fosse por alguns minutos. Nem acredito que finalmente consegui concluir a maratona que foi concluir os sete volumes de Em Busca do Tempo Perdido, que na verdade é como se fosse apenas um livro enorme de quase 2500 páginas, com o mesmo narrador e praticamente os mesmos personagens em todos os volumes. E li muito nas viagem para a praia, coloquei meu leitor digital em um saquinho de fechamento hermético e li sem me preocupar com areia ou maresia. Foi um ano de ótimas leituras!

Sodoma e Gomorra - Marcel Proust
A prisioneira - Marcel Proust
A fugitiva - Marcel Proust 
Tempo recuperado - Marcel Proust 
É difícil para mim separar os livros e não tratar os setes volumes, que comecei a ler no ano passado, como um único grande livro com parágrafos que chegam a muitas páginas e poucos capítulos (geralmente dois ou três capítulos por livros) e que me levou quase dois anos para concluir. De longe foi o meu maior feito finalmente ter concluído a saga de Proust. Acho que meu cérebro foi reconfigurado depois dessa façanha, não por ter ficado mais inteligente, mas sim por ter conseguido ter mais paciência com a leitura em que quase nada acontece e em que o narrador é um tanto quanto chato. Mas por trás de todos os saraus, vesperais, peças de teatro e jantares em casas de pessoas ricas da sociedade de Paris do final do século XIX e início do século XX, Proust escreveu sobre o ser humano, as vontades, os desejos, os medos, as inadequações. Minhas partes favoritas foram no Hotel do Jupien, as conversas com o Barão de Charlu, com Oriane e os feitos de Gilberte. Gostei muito de ver um ponto de vista sobre a Primeira Guerra Mundial, de quem não estava ali no front e como a vida precisava continuar apesar da guerra. E pesquisei também sobre o Caso Dreyfus, que é real (e eu não conhecia!) e percorre vários trechos do livro, deixando impossível não fazer paralelos com as guerras atuais. Os relatos de bissexualidade e homossexualidade foram profundos, sem caricaturas e fiquei surpreso que um livro de mais de cem anos parece ainda tão contemporâneo. E todo o tempo fiquei com a máxima de "não confie no narrador", afinal de contas Marcel (que, por coincidência ou não, tem o mesmo nome de Proust) narra tudo em primeira pessoa, sempre de seu ponto de vista. Minha personagem favorita foi a governanta Françoise, acho que por sempre dizer o que pensa, sem se preocupar com educação. Na edição que li havia algumas notas de rodapé que informaram que praticamente todos os personagens foram baseados em pessoas famosas conhecidas por Proust. Mas o melhor mesmo é ler com o distanciamento geográfico e temporal, todas essas pessoas já morreram há anos. E adorei ver as notas do tradutor nos supostos erros de revisão de Proust (quando ele esquece que um personagem já havia morrido ou quando ele troca o parentesco de um personagem). Os últimos volumes não haviam sido publicados quando Proust era vivo. Eu amei ficar tanto tempo imerso nesse mundo, mesmo com a sensação em alguns momentos que a minha leitura não avançava. O final é maravilhoso, uma das coisas mais bonitas que eu já li e é impossível não pensar na passagem do tempo e nas esculturas que a passagem do tempos forma em nós.

Nós: O Atlântico em solitário - Tamara Klink (audiolivro)
Esse foi meu primeiro audiolivro, que veio em parcelas no podcast da Companhia das Letras. Eu adorei a dramaticidade da narração da Tamara Klink e realmente os feitos dela na navegação são incríveis! Eu jamais teria coragem de fazer algo parecido! Mal posso esperar para os próximos livros de Tamara.

Coisa de rico - Michel Alcoforado 
Esse livro é uma delícia de ler e gostei de pegar algo leve depois da Maratona Proust. Eu comprei para minha mãe, mas aproveitei para ler também. Adorei conhecer mais sobre os super ricos brasileiros e a escrita de Michel Alcoforado é maravilhosa. E ouvi tantas entrevistas dele em podcasts que sigo que parecia que já o conhecia. Eu li inclusive com sua voz na minha cabeça. E foi ótimo ver tantos amigos postarem fotos com esse livro, que virou uma febre. Imagina um livro baseado em uma tese de doutorado de antropologia alcançar tanta gente!

Latim em pó - Caetano Galindo 
Esse também comprei para minha mãe de natal e aproveitei para ler. Que delícia esse livro sobre a formação do português brasileiro, de como ele se transformou do latim, sofreu várias influências e chegou no nosso português brasileiro.

Na ponta da língua - Caetano Galindo
Esse também fez parte do pacotão de presente para minha mãe e de certa forma está relacionado ao Latim em Pó. Adoro o jeito que o Caetano Galindo escreve. E gostei de separar as palavras por partes do corpo. Eu me senti em uma aula divertida sobre as origens de várias palavras do português brasileiro.

Você , colônia - Beatriz Leal Craveiro 
É maravilhoso ler um livro de um autor que a gente conhece pessoalmente. Esse é o segundo livro que li da Beatriz, o primeiro foi o ótimo Mulheres que Mordem (que li em 2020). Eu devorei esse livro e os relatos dos narradores diferentes. Adorei ver as referências aqui da cidade e pensei em como é fácil enlouquecer. Poderia ser eu ali internado naquela clínica. E o livro vai ganhar versão impressa nesse ano! Que orgulho!

A boba da corte - Tati Bernardi
Esse é o primeiro livro de Tati Bernardi e adorei. Gosto muito dos podcasts da Tati e o livro também li escutando a voz da Tati na minha mente. Outro livro que devorei e ri em várias partes.

Mela cueca - DJ Zé Pedro
A pequena biografia de Zé Pedro no começo do livro foi a minha parte favorita do livro. Eu sou fã de Zé Pedro há muito tempo, desde a época do Super Pop. Em uma edição do Night Lab no SESI Lab há alguns anos finalmente consegui ver (e dançar) em um set dele. O livro é ótimo e tem várias curiosidades sobre músicas "mela-cueca" dos anos 60 a 80.

Gilberto Braga o Balzac da Globo - Maurício Stycer e Artur Xexeu
Eu mergulhei nesse livro de um jeito absurdo. Eu vi poucas novelas de Gilberto Braga, mas fiquei doido com Dancin' Days (que vi no Viva) e Vale Tudo (que vi na Globoplay). Que livro maravilhoso! Depois quero assistir mais coisas de Gilberto Braga e espero que a Globo lance mais séries e novelas baseadas nos textos inéditos dele. Eu estou completamente viciado!